Vocês devem estar questionando sobre o significado desse título e logo irei te explicar, mas antes gostaria que responde-se a si mesmo uma pergunta: Quando foi a última vez que você brincou ou foi legitimamente espontâneo? Vou contar- lhes uma experiência que tive essa semana. Ganhei ingressos para assistir um espetáculo de circo e fui sem nem ao menos imaginar o quanto a emoção iria invadir, e o quanto iria me comover ao ponto de passar a noite em claro refletindo sobre o que afinal de contas ocorreu com a menina que existia em mim. Quando criança morava em uma cidade bem pequena e passava meus dias empinando pipa, nadando no rio, disputando uma “pelada” com a garotada da rua ou andando de carrinho de rolimã.


Você deve estar se perguntando: mas ela não brincava de boneca?
A resposta é sim, brincava, mas a maioria das crianças do meu convívio eram meninos e
dificilmente eles topavam brincar com esse artefato e era preciso rolar a maior negociação. Além do mais nunca gostei de brincar sozinha, sempre fui comunicativa.


Um dia, chegou o “Grande Circo” na cidade e eu costumava guardar as moedinhas que ganhava só para comprar o ingresso e assistir o mesmo espetáculo uma, duas, três vezes, simplesmente porque havia o encantamento com “o homem- elástico”, “o globo da morte”, o palhaço que esguichava água de uma flor e minha atração preferida, “a moça dos lençóis” – como ela era corajosa, subia por um lençol até o teto e depois lançava-se rumo ao chão contando apenas com os próprios recursos do corpo, parando a poucos metros antes de tocar o chão. Ela era fabulosa!


Bom, como toda infância temos os nossos dias alegres e nossos dias tristes. Para algumas crianças a realidade pode se transformar em algo muito duro e comigo não foi exceção.


Com as demandas da vida escutei: engole o choro, senta direito, não ria alto, não grite, não fique triste, seja mais rápida, tire boas notas – o que vai ser do seu futuro? – não seja frouxa (hoje compreendo que não era questão de fraqueza, mas que sempre tive uma sensibilidade diferente), e nesse processo de me “ajustar” ao que era exigido, fui perdendo o encantamento, fui perdendo o riso solto, fui perdendo minha leveza e imaginação… Havia me tornado uma criança e depois um adulto “responsável” e como sentimento de nunca ser o suficiente, fui me perdendo de mim.

Há alguns anos, resolvi mudar de profissão, me tornei psicóloga e em meus atendimentos sempre busquei ajudar meus clientes a encontrarem a criança que um dia eles foram, mas somente compreendi o que isso realmente significa quando “fui me resgatar” e me tornei uma adulta “boboca” porque brinco, sorrio e choro quando me emociono.


Quantas vezes nos pressionamos a dar respostas, a não falhar, a ser responsável, a ser produtivo, a ser sério, a ser respeitável para esconder dos outros e o pior de nós mesmos que somos frágeis e que às vezes precisamos de colo. Nosso corpo reage enviando informações como dores de cabeça, enjoos, dores na coluna, coração acelerado, problemas dermatológicos dentre uma infinidade de outros sintomas….Nosso corpo é sábio.

Nos transformamos em robôs por medo da espontaneidade e sermos considerados ridículos e ninguém nos querer.

Temos muito que aprender com as crianças, experimente questionar  o que elas querem e você terá uma resposta rápida e sincera.
Certo dia perguntei ao meu filho, o que ele queria ser quando crescesse e ele rapidamente me respondeu: “quero ser palhaço de circo!”.

 

Hoje, percebo o quanto isso é bom. O palhaço ri das próprias desgraças, percebe as próprias limitações, mas não desiste de fazer o que quer, mesmo que leve alguns tombos e chore, se mantém seguindo em frente com o coração aberto para o novo e com o olhar da surpresa.
 

Ontem, reencontrei minha criança interior e ela estava muito feliz por estar mais uma vez no circo que é um lugar mágico, onde tudo é possível.
Às vezes é ela que me encontra e diz que preciso reduzir o passo, comer sonhos (aquele doce feito de creme de ovos), brincar um pouco mais e que vai ficar tudo bem. Sou eternamente grata a ela.

 

 

Busque a sua criança interior e pergunte o que ela precisa.
Você pode ficar surpreso com a resposta.

A Criança interior 

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