Sobre Gestalt-terapia:

Uma das diferenciações da Gestalt-terapia consiste na preocupação não apenas com os processos patológicos que envolvem o diagnosticar e classificar os transtornos, mas, principalmente, com os processos saudáveis presentes ao longo do desenvolvimento do homem. Sendo a noção de processo algo que está em permanente movimento, em constante mudança e que interfere diretamente na percepção da história de vida e do meio em que se está inserido.
A Gestalt-terapia é considerada uma terapia do contato, onde se acredita que a todo o momento estamos em contato com o meio, e por meio deste que o funcionamento do homem pode tornar-se saudável ou disfuncional.
Como se trata de uma abordagem fenomenológica-existencial, ressalta-se a consciência do aqui-e-agora através do contato com os sentidos, para que se promova a integração das experiências de vida, focalizando a atenção no que está ali, dado, presente, visível. Quando a pessoa consegue perceber os acontecimentos de sua vida, o seu viver ganha consonância, sem confusão e sem sofrimentos desnecessários.
A postura de um terapeuta gestáltico é de cuidar da relação que está sendo construída em conjunto com seu cliente, pois, compreende-se que a partir da inclusão, aceitação e confirmação das suas experiências, favorecemos o crescimento e o desenvolvimento de suas potencialidades, fazendo com que ele realize novas e melhores escolhas de construção e reconstrução de si mesmo e de sua impressão do mundo.

Psicologia da Gestalt:

Ao se procurar a tradução da palavra alemã Gestalt, hoje reconhecida no mundo todo, não conseguimos transpor exatamente o significado para nossa língua. Podemos tentar defini-la como gerar forma, dar uma estrutura significante, uma configuração ou uma totalidade organizada.
Um dos precursores da Gestalt foi Christian von Ehrenfels, que enfatizava as qualidades de experiência que não poderiam ser explicadas como combinações de elementos sensoriais. Essas qualidades foram chamadas de Gestalt Qualitäten (qualidades de forma). Para esse pesquisador, a forma em si era um elemento criado pela mente em operação aos elementos sensoriais.
Posteriormente este conceito foi utilizado por Wertheimer, Köhler e Koffka que desenvolviam pesquisas no campo da percepção e que demonstraram que o homem não percebe os acontecimentos que permeiam a vida de forma isolada e sem relação, mas que os organiza em algo, definido ulteriormente como processo perceptivo. Esses estudos foram fundamentais para formação da Escola Gestáltica que enfatizava nossa tendência a integrar partes de informações em um todo significado.
Isso significa dizer que os psicólogos da Gestalt acreditavam que a percepção vai muito mais além dos elementos sensoriais. Durante esse processo, a mente forma ou cria uma experiência completa. Desse modo a percepção torna-se uma organização ativa dos elementos, de maneira que forme uma experiência harmoniosa que vai muito além dos dados físicos básicos disponibilizados pelos órgãos dos sentidos. Em outras palavras, a percepção depende ao mesmo tempo, de fatores objetivos (aqueles fornecidos por nosso sistema sensório) e dos fatores subjetivos, cuja importância pode variar de indivíduo para indivíduo.

A Psicologia da Gestalt compreende que, a realidade do campo visto como um todo interfere na forma da percepção, da aprendizagem e da solução dos problemas. Quando ocorre uma disfunção em algum desses três elementos é necessário uma reorganização do campo perceptual.
É nos fenômenos da percepção que a Gestalt descobre as condições para a compreensão do comportamento do homem. A maneira como se percebe o estímulo provocará o comportamento humano. Vale esclarecer alguns princípios fundamentais e a partir dos quais a percepção se configura:


Princípio do fechamento: afirma que há a tendência de se buscar na memória algum elemento que seja próximo do objeto, na questão de conteúdo e forma, para facilitar o entendimento do mesmo.

Princípio de proximidade: significa que, ao se perceber um objeto, há a tendência de que ele seja agrupado de acordo com a relação de proximidade que ele possui com outro objeto.

Princípio da semelhança: como o próprio nome diz, há uma tendência do homem de agrupar os elementos de acordo com suas semelhanças.

O todo e a parte: significa que ao se observar um objeto, há a tendência de se perceber a totalidade do objeto e não apenas suas partes.


Figura e fundo: uma parte emerge do todo e se discrimina do resto da gravura. A parte que emerge é a figura e os outros elementos são o fundo. A fluência figura-fundo é que garante um aspecto saudável na satisfação das necessidades atingindo dessa forma o equilíbrio.

História da Gestalt-terapia:

Quando nos interrogamos sobre a origem da Gestalt-Terapia obtemos duas respostas discordantes: para alguns, a paternidade é atribuída a Fritz Perls; para outros, a fundação se deve a um grupo denominado “grupo dos sete”, que compreendia um médico, um educador, dois psicanalistas, um filósofo, um escritor e um especialista em estudos orientais.
Friedich Salomon Perls (Fritz Perls) nasceu em Berlim, Alemanha, em 1983, possuía doutorado em medicina com especialidade em neuropsiquiatria e se interessava a princípio pela psicanálise junto com sua esposa Laura Perls. Ambos possuíam uma visão crítica e foram desenvolvendo em conjunto, sua própria visão da psicanálise e da psicoterapia o que acarretou no afastamento dos círculos da Sociedade de Psicanálise mais tradicionais.
Em 1934, devido a perseguição aos judeus Fritz e sua esposa se refugiaram em Joahannesburg, na África do Sul onde continuaram a exercer a função de psicanalistas e fundaram o Instituto Sul-Africano de Psicanálise. Dois anos após a fundação do instituto, Fritz apresentou em um Congresso Internacional de Psicanálise, um trabalho ligado as “resistências orais” que culminou futuramente no livro Ego, Fome e Agressão: Uma revisão da teoria e do método de Freud.

Após a Segunda Guerra, emigraram para os Estados Unidos e entraram em contato com grupos de artistas, terapeutas e intelectuais que compactuavam com sua forma de pensar e viver a vida.
Em 1950, juntaram-se a Isadore From, Paul Godman, Paul Weiz, Elliot Shapiro, Sylvester Eastman e posteriormente Ralph Hefferline e assim formaram o “grupo dos sete”. Esse grupo construiu a Gestalt-terapia a partir de fontes como a Psicologia da Gestalt; a Fenomenologia; o movimento existencialista; a Teoria Organísmica de Goldstein ; a Teoria de Campo, de Lewin; o Holismo, de Smuts; o Psicodrama, de Moreno; as teorias de Reich ; o olhar de Karen Horney ; as idéias de Buber e de Paul Tillich e, por fim, a filosofia oriental. O primeiro livro publicado dessa nova abordagem foi lançado em 1951, com o título “Gestalt Therapy – Excitement and Growth in Human Personality”, (no Brasil, “Gestalt-terapia”) escrito por Fritz Perls, Ralph Hefferline e Paul Goodman.


Em 1968 com os protestos jovens surgindo com os estudantes e depois com os hippies, reivindicando o direito de viver em liberdade; o “Amor, não a guerra”, a aceitação e a divulgação da Gestalt-Terapia ganhou grande ênfase, pois, tratava-se de uma corrente de pensamento que confluía com o movimento da contracultura. Após esse período outros autores foram desenvolvendo e complementando as ideias iniciais do grupo dos sete, ainda que preservando suas raízes básicas, fazendo dela uma psicologia fenomenológica-existêncial.

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