Era uma vez e não era uma vez, uma menina como todas as outras meninas, que costumava sonhar e imaginar as coisas além do que elas são. Nuvens poderiam ser apenas uma pequena formação de gotículas de água condensadas no céu ou, simplesmente, feita de açúcar como um grande algodão-doce. Bolhas de sabão, não seriam formadas apenas por água e detergente, mas se transformariam em asas de  fadas coloridas a voar no céu. Borboletas e formigas poderiam ser apenas insetos, mas eram seus amigos e dividiam com ela as histórias de seus livros. O arco-íris não era apenas a dispersão da luz do sol que sofre refração pelas (aproximadamente esféricas) gotículas de água, mas era um grande portal para um mundo mágico particular. Naquela pequena mente, tudo era possível.

A menina, sem querer comparar com os contos de fadas, morava com adultos que por algum motivo, perderam o encanto, a imaginação e a ludicidade e se transformaram em pessoas muito sérias, daquelas que não brincam  e estão sempre focadas em algo (isso me lembra O contador de estrelas do Pequeno Príncipe).

Certo dia, um adulto resolveu preparar uma pizza comum, com queijo e presunto comum, para receber outros adultos que considerava seus amigos e a menina estava ali, sentada na mesa, ansiosa, esperando por essa preciosidade gastronômica.

Qual foi a surpresa da menina, ao perceber que ao cortar as fatias, o queijo estava derretido e se esticava até não poder mais e em sua inocência, pois ainda não conhecia muitas coisas, solta a frase cheia de encantos: “É uma pizza de elástico!!!!”; mas sua alegria não durou muito e logo foi tomada pela tristeza e a vergonha.

O que aconteceu em seguida foi que o adulto, com vergonha da inocência da menina, ralhou com ela, dizendo que no lugar do cérebro, existia uma “cabecinha de vento” que não pensava, porque afinal, não existiam pizzas feitas de elástico e a gargalhada, foi coletiva, menos para a menina.

Desde então, a menina transformou-se em alguém calada e borboletas e formigas, passaram a ser apenas insetos, nuvens eram feitas de gotículas de água e o arco-íris, não levava a lugar algum. A magia se acabou e ela virou uma criança-adulta cheia de responsabilidades adultas.

Os anos foram se passando e a menina crescendo muito séria, sem brincar e achando um absurdo quem brincava, pois afinal, adultos não brincam nunca. Então, a tristeza que era pequena quando criança, ganhou outra proporção em um corpo adulto, até chegar o momento em que a menina, agora mulher, decidiu procurar ajuda, pois a vida cinza já não lhe era possível e voltou a imaginar nuvens feitas de açúcar e a brincar.

Muitos anos se passaram e um dia recebeu a visita de uma criança que era sua sobrinha e que ainda possuía a capacidade de criar imaginar, ainda não transformou-se em adulto sério (e esperamos que nunca se transforme, que nunca perca a sua capacidade de criar e imaginar).

Pensando de que modo poderia alimentar a pequena, resolveu preparar-lhe um macarrão minhoquinha (espaguete), com bastante queijo, presunto e especiarias. Ao olhar e pescar o primeiro macarrão, qual foi a surpresa senão o queijo derretido, esticando até não poder mais. Naquele instante a mulher lembrou-se que havia passado por situação parecida, quando menina e, nesse momento, a pequena expressa a frase com toda doçura e inocência: “Hum….nunca fizeram para mim um macarrão de elástico”.

É aqui que essa história, talvez possa se fazer compreender, tornou-se um momento crucial para aquela mulher: ela poderia repetir a história, dizendo à pequena o que um dia ela escutou e a transformou ou poderia fazer diferente.

Com toda a emoção em seus olhos, ela optou por outro caminho e respondeu que de fato,  os macarrões feitos de elástico eram os melhores que existiam e assim, surgiu o pacto do macarrão: casa de tia é casa de possibilidades e de elástico no macarrão.

Entrar no lúdico trouxe a cura definitiva para a menina dentro daquela mulher e, para a pequena, a certeza de nuvens de algodão-doce, portais mágicos, fadas e tudo o que for aparentemente impossível, torna-se realidade.

A reflexão dessa história é que a vida, de uma maneira ou de outra, sempre nos trará oportunidades de cuidar das nossas feridas e assim evitar machucar as pessoas que nos cercam e que amamos.

Compreender nossas marcas nos traz a oportunidade de sonhar e criar meios de lidar de modo diferente, as dificuldades presentes no cotidiano.

Ah!! Sobre a menina e o adulto do início da história: os ponteiros do relógio avançaram muitas horas e se transformaram em dias e os dias em semanas e as semanas em meses e os meses em anos. Até que um belo dia a menina, agora mulher, compreendeu que o adulto não fez por mal, talvez ele também tivesse tido sua alma ferida ainda quando criança e a mulher enfim pôde entender que ciclos precisam se romper para que a vida possa voltar a  florescer sobre outras formas, assim como as borboletas e as flores em seu jardim.

Sobre bolhas de sabão, nuvens, arco-íris e ser criança

(De que modo somos nutridos na infância?)

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